
Lembro que nas aulas de Ética (sim, absorvi algo nessas aulas) o professor citava Jean-Jacques Rousseau (Rousseau, para os íntimos) dizendo que “O homem nasce bom, a sociedade é que o corrompe”. E minhas colegas de curso devem lembrar das minhas pequenas interrupções para concordar com Rousseau e discordar do teacher que dizia ser “perigoso” esse argumento num tribunal. Dizer, por exemplo, que o individuo é produto da sociedade que o comporta (E sim, pra quem não tem idéia, eu sou aquela aluna cricri que sempre faz um comentário no meio da aula).
Mas numa auto-análise eu vejo que o que eu sou, a pessoa que sou, minha forma de pensar eu devo aos episódios de Caverna do Dragão; Smurfs; Punk, a levada da Breca; A Feiticeira; Thundercats; ao Xou da Xuxa; ao meu Atari e aquele maldito Enduro que eu jogava com a casa cheia de amigos enquanto a minha mãe trabalhava; aos gibis da Turma da Mônica; à leitura dos Sabrinas e derivados; às comédias românticas que reprisavam mil vezes na sessão da tarde; às revistas para adolescentes que eu sempre colecionei (e sou uma colecionadora nata), à minha coleção de livros de Monteiro Lobato que tinha “Reinações de Narizinho”, “Caçadas de Pedrinho” e outros temas que, me desculpem, a minha péssima memória não vai ajudar; aos “Harry Potters” que li, todos emprestados; aos cursos de datilografia (pasmem!), informática, inglês; às tardes dentro de um fliperama jogando Street Fighter e Mortal Kombat; ...
Concordo com meu professor que não podemos culpar a sociedade por quem somos. O livre arbítrio nos está posto pra isso. Ou então seríamos separados por Estado de nascimento ou por comunidade e determinados com pessoas exatamente iguais por região.
Mas é fato que, a influência da sociedade, principalmente suas determinações (como na música da Pitty: “Pense, Fale, Compre, Beba, Leia, Vote,...”) interfere, sim, na minha concepção, em quem será esse homem.
Talvez, o problema esteja no “nasce bom”. Colocar a culpa da sua entrega aos instintos ruins na sociedade, na sua presença ou ausência tão determinantes é onde reside o perigo.
Se eu tivesse nascido nos anos 60, por exemplo, teria uma outra forma de pensar certas coisas. Outra visão de mundo. Isso a gente observa fácil nos conflitos de gerações.
Uma neta micareteira contando para a avó que beijou 10 numa noite pode fazer a senhora infartar fácil.
Nossos sonhos e desejos também estão relacionados à época que vivemos, a sociedade atual. Quando eu contar pro meu filho que eu fiquei um mês inteiro esperando o pagamento para comprar um LP dos New Kids on the Block sei que ele vai rir como eu faço quando a minha mãe conta que ir na casa da vizinha assistir a Jovem Guarda era tudo de bom. Havia superprodução: roupa nova e maquiagem (e ela e a minha tia chegaram a usar peruca kkkkkkkkkkkkkkkkkkk). Ela ainda me mata por postar isso.
É igual foto antiga. Todo mundo parece ridículo em foto antiga. É feio (Na verdade, eu saudosista, acho lindo). Não cabe no nosso contexto.
Mas acho que eu agora e algumas das minhas amigas só podemos pensar no que é que estamos oferecendo para os nossos filhos. Que tipo de sociedade, com quais pessoas eles andam se relacionando, os filmes e desenhos que andam vendo, os jogos, os livros (ou a ausência total de livros em suas vidas), ... Porque é daí que vai sair as pessoas que eles serão e uma nova sociedade. Sociedade essa que vai nos abrigar velhos e como avós se tivermos muita sorte.
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