segunda-feira, 31 de maio de 2010

Sangrando...

Há alguns anos, estava tomando banho no banheiro ao lado quando a música que eu ouvia no aparelho de som portátil que estava em cima do balcão da pia acabou e quem me conhece sabe que ouvir uma música uma única vez não é para mim. Estava depilando as pernas mas mesmo repleta de espuma, me levantei e coloquei aquela faixa para repetir.
Não havia notado que, ao sair, tinha deixado cair o aparelho. Ao voltar, pisei nele e o peso do meu corpo fez com que aquela borda plástica se quebrasse e a lâmina entrasse como uma faca no meu pé. Doeu muito. O corte foi profundo.
Só consegui ver o sangue de fato após esvaziar a banheira e acabar com toda aquela espuma. E nada fazia parar de sangrar.
Eu chorava e reafirmava que ponto eu não ia levar. Minha mãe colocou café, açúcar, ... (Por que nessas horas ninguém diz:'Vai buscar vodca que é bom'? xD)Uma hora, parou de sangrar.
Estava de short e blusa de frio, o corte pulsava, doía, ... E o que eu ia fazer? Tentei sair do sofá numa sala e chegar a outra. Próximo à escada da sala de jantar, após uns dez passos, meio pulados, meio na ponta do pé formou-se uma enorme poça, eu diria, uma lagoa de sangue no piso de fundo branco.
Eu, particularmente, acho linda a cor viva do sangue. Mas voltei a chorar. Não pela dor ou pelo sangue mas porque me vi impossibilitada ... de andar, de sair dali.
Meu irmão sabe o quanto me restringir os movimentos me irrita. Quando a gente brincava, ele me segurava e com o peso do seu corpo me impossibilitava sair do lugar. Sempre acabava perguntando de onde uma coisinha do meu tamanho tirava forças para me desvencilhar. A inércia nunca foi um estado cogitável para mim.
A cena da poça de sangue se repetiu mais algumas vezes naquela semana. A do choro, cada vez menos.
E é assim que eu me sinto hoje. Achei que uma ferida no coração tinha cicatrizado mas, como no meu pé, qualquer movimento faz com que ela desate a sangrar novamente.
Pior que dessa vez eu até estou disposta a tomar os pontos. Só me digam onde, por favor.
O sangue quer apenas fazer o que ele sempre fez. Correr livre, passear pelas artérias transportando oxigênio, nutrientes, fazendo os soldadinhos da defesa imunológica circularem (todo mundo já viu essa ilustração em revista educativa né?) ... A imprudente que se cortou fui eu. Como sempre, a culpa é minha.
O sangue não pediu para sair mas tinha uma porteira aberta no seu caminho natural. Pior que eu já admirei sua beleza e as formas que as poças podem tomar.
E agora o que eu faço? Dessa vez, inúmeras semanas, uma após a outra se passaram e 'The New Dom Juan de Marco' continua a plainar pelos meus pensamentos, meus sonhos secretos.
E agora o que é que eu faço?

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