segunda-feira, 30 de novembro de 2009

Eu queria ser rasa ... (Porque ser profunda é foda!)

Eu queria ser rasa. É foda ser profunda . E gente rasa é tão legal. Tenho amigas com mais de 20, algumas beirando os 30 que conservam a “razicidade” dos 15 anos. Eu, pessoalmente, nem aos 15 anos fui “rasa”. Por que? Porque eu intelectualizo demais a vida. As coisas que realmente me interessam são pensadas e repensadas inúmeras vezes ao dia. Tenho a necessidade de entender o porquê de tudo e isso nunca é real.
Crio fantasmas e problemas que não existem e depois preciso procurar uma “solução” pra eles. Monto e desmonto situações trágicas sozinha com a minha mente e sofro muito porque passo a acreditar cegamente nelas.
Sozinha em casa, numa tarde pensando sou capaz de acordar sorrindo lembrando da noite anterior e de repente, pensar que e SE ...e invariavelmente acabar chorando.
Você, ser paciente, que me lê nesse momento, tenta visualizar comigo dois buracos na terra. Um bem raso, que se chovesse mal daria uma poça d'água. E outro de uns 4 metros de profundidade. No segundo, inúmeras espécies de móbiles de formas e cores sortidas que variassem do semialegre ao sombrio. Que vozes ecoassem das suas “paredes”em todos os tons e idiomas; vozes femininas e masculinas; doces e afetuosas, rudes e”imperativas”. Que no fundo desse buraco houvesse um espelho, daquele tipo o de parques, que deformam a imagem. E ainda que antes de se chegar a esse tal espelho, a uma distância de menos de 1 metro existisse uma grade, uma tela que impedisse você de se aproximar e notar como realmente ele é.
Vivo nesse buraco há mais de 30 anos. E sofro de um tipo de síndrome de Estocolmo. Por muitas vezes, eu gosto dele. É o meu lar, onde sei como as coisas funcionam ou tendem a funcionar. É o “mal conhecido”, me é familiar por mais confuso que seja.
E todo “profundo” que se preze já pensou, um dia, em se matar ou em matar alguém. De verdade ou só no campo das ideias que o tirariam da “dor que é viver”. Porque também é indigesto processar pelo cérebro de um profundo algumas coisas do mundo. (Leia-se por coisa: ideia, sentimento, lógica, “normalidade”, ...).
Como nutrimos sentimentos mais densos:
Não gostamos- amamos,
Não desgostamos- odiamos (no meu caso, por no máximo 30 segundos),
Não somos amigos- somos irmãos,
Não percebemos que a pessoa não estava- quase morremos de saudade,
Não ficamos tristinhos- caímos em depressão (profunda, muitas vezes)
E não é um exagero à la emo (sem preconceito algum). Sentimos assim mesmo. Injustiçados por um mundo incapaz de nos compreender.
E esse mundo só não nos entende porque ninguém vive nas mesmas condições. Não tem como sentir o cheiro, o gosto, o amor, a dor, o tempo, o vento, qualquer sensação como quem está no claro e superficial primeiro buraco. Nem mesmo como quem está num outro buraco profundo.
Às vezes, subo pra superfície pra tomar um ar. Como quando reuno as amigas “rasas” e vou pra balada ou só pra tomar um vinho e lembrar das coxas de algum menino que a gente beijou por beijar.
Nessas horas, tenho vontade de ficar ali na claridade, onde é raso. E até consigo me manter assim por algum tempo. Até que qualquer coisa ali me assuste ou toda aquela claridade comece a me incomodar. Aí volto pra onde sei viver. E de verdade, acho que sinto falta de tudo que eu já conheço. Principalmente das vozes.

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